:::Nectárea Terra do Servir:::

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Srila Sridhar Maharaj

 

Buscador: Em essência, o que somos?

Srila Sridhar: Para compreendermos isso, temos que primeiro inquirir sobre a alma. Primeiro está a mente, manah Então vem a inteligência, buddhi, e depois a alma, ãtmã. A alma é sempre verde: nunca murcha. A alma é eterna, constante. É dito nos Upanisads e na Gitã: se pudermos contactar a alma uma vez, então ocorrerá uma mudança diametral em nossa vida. Nessa hora ficaremos estarrecidos ao perceber, "Ó, há algo tão altamente qualificado aqui, dentro de mim! Por ignorância, estava considerando que este corpo perecível e esta mente hesitante eram meu verdadeiro ser. Mas, os sentidos e mente materiais são transgressores, tendem a ser inimigos em relação a meu verdadeiro ser. Eu sou a alma. Eu não tenho necessidade de todas estas coisas. Posso viver sem todas estas coisas materiais desnecessárias! A alma não precisa do alimento proveniente da jurisdição deste plano material. A alma é independente. Quão maravilhosa é a existência que eu tenho! Na realidade eu sou alma, e a natureza da alma é tão nobre, tão elevada, tão boa." Uma mudança diametral de consciência surge neste ponto e tenta-se entrar nesse domínio superior. O que precisamos é da realidade espiritual. Somos alma, somos independentes da matéria. Somos feitos de tal existência transcendental, e nada pode ameaçar a existência da alma, nem bombas atômicas, guerra nuclear, raios, trovões ou terremotos.

Buscador: O que é este corpo?

Srila Sridhar: Todos os aborrecimentos deste mundo material estão limitados a este corpo que é uma carcaça estrangeira, uma inventada representação de meu verdadeiro ser. Meu verdadeiro ser existe no plano espiritual em um nível superior. Se pudermos realmente ter um relance dessa realização, de nossa própria identidade, se pudermos sentir, internamente, que a alma independe da matéria, então terá lugar uma mudança radical em nossa mente. De forma que, nossa tentativa de progredir na vida espiritual passa a ser bastante genuína. De outro modo, nosso progresso é suspeito, duvidoso. Nós o agarramos intelectualmente e pensamos, "Sim, deixe-me tentar. Estou ouvindo; é claro que tenho uma boa perspectiva na vida espiritual. Graças a minha inteligência posso acompanhar alguma coisa. Deixe-me tentar! " Mas, progresso no plano intelectual é apenas progresso hesitante. Quando se alcança o plano de sua própria alma, entretanto, encontra-se o próprio ser e realiza-se que, "Aqui estou Eu! " Nesse momento, desvanecem-se como num sonho todos os falsos conceitos, mantidos por tanto tempo. Todos eles acabarão e pensar-se-á, "Eu devo iniciar uma nova vida." E uma nova perspectiva surgirá para produzir progresso no plano superior.

A alma está próxima. Podemos tentar descobrir o que a alma é se pudermos eliminar os elementos materiais. Este é o progresso dos Upanisads e é mencionado na Bhagavad-gitã: parãny ãhuh (3.42). Primeiro, temos que entender que nossos sentidos são primários. "Se meus sentidos forem removidos, o mundo inteiro de nossa experiência é nada para mim. Somente através de meus sentidos é que posso ser consciente da existência do mundo externo. Subtraindo os sentidos, os olhos, os ouvidos, nenhum mundo é palpável para mim." Então, acima dos sentidos está a mente.

Buscador: O que é a mente?

Srila Sridhar: A mente lida com aceitação e rejeição: sankalpa-vikalpa. Em outras palavras a mente pensa, "Eu quero isto, eu não quero aquilo." Lida com apego e aversão. A mente determina quem é inimigo e quem é amigo, isto é meu, aquilo é teu. Se queremos entender a mente temos que olhar dentro, que inquirir dentro: o que é esse elemento em mim que busca amigos e evita inimigos? Onde está ele? As vezes a mente é palpável- outras vezes esconde-se. Tenho que descobrir onde é que a mente existe; de que substância se compõe? Através da análise posso vir a compreender qual aspecto de meu ser interno é a mente. Então, tendo alguma idéia do que a mente é, posso passar a análise dessa parte de mim que lida com a razão: a inteligência.

Buscador: O que é a inteligência?

Srila Sridhar: Quando a mente exige algo, a inteligência diz, "Não pegue isso, não coma aquilo." Através da introspecção Eu posso olhar dentro e descobrir: qual é em mim o princípio que raciocina? Onde está essa coisa sutil? Qual é sua natureza, sua substância e sua existência? Deveremos, em nossa introspecção tentar descobri-la substancialmente. Se isso é possível, então, o próximo passo nos levará à alma.

Buscador: O que é essa alma que torna possível a inteligência, a razão pela qual agimos, que faz com que a mente deseje e que também concede aos sentidos o poder de conectar-se com as coisas? O que é essa centelha de conhecimento? Onde está essa alma dentro de mim? Que posição mantêm? Quero vê-la face a face.

Srila Sridhar: Desta maneira podemos dissipar, como um raio, todos os falsos conceitos de corpo e mente. Ao descobrir a alma, pela introspecção, poderemos experimentar o toque lampejante da compreensão.

Nesse momento, o mundo inteiro assumirá um sentido diametralmente oposto e poderemos ver as coisas de modo diferente: "Ó, esta vida material é indesejável! Estes sentidos são inimigos vestidos de amigos. Se eu os enfrento, agora, eles dizem que posso ter uma amizade honrada com eles e que sem eles não posso viver. Mas é tudo uma fraude."

Desde a compreensão da alma, do ponto desse maravilhoso conhecimento, pode-se chegar a ver o oceano de conhecimento. Começa-se a ver o que há na região subjetiva e anseia-se pelos meios de vir a conectar-se com esse domínio divino. Nesse instante, a própria tendência de nossa vida será transmitida. Haverá uma mudança total em nós, em nosso padrão de perspectiva de vida. E nossa busca ganhará forma concreta na devoção. Desta forma, devemos iniciar nossa busca pela esfera superior e o modo de lá entrar.

É o oposto deste plano da exploração. No Paraíso Perdido de Milton, Satan diz, "É melhor reinar no inferno que servir no céu." Mas, nós experimentaremos exatamente o oposto: "E melhor servir no céu do que reinar no inferno." Servir no céu é muito superior a reinar no inferno.


Buscador: O que é este mundo?

Srila Sridhar: Deveríamos compreender que estamos vivendo no plano do equívoco. A coisa toda é falsa. Tudo é parte da ilusão. Algo poderá ter seu lugar, dentro do mundo da ilusão, mas, quando lidamos com a verdade real, concluiremos que tudo aqui é como um sonho. Este mundo inteiro é como um sonho, um equívoco. Qualquer parte deste mundo será, portanto, também um equívoco. O que é verdade, e o que é real, será palpável no momento em que algo for pensado em sua conexão com o mundo real. Este ajuste ocorre pela associação com os santos, que tem uma conexão genuína com a realidade espiritual.

Buscador: O que é real e o que é irreal?

Srila Sridhar: O que quer que tenha uma conexão com o ser real, com a alma, é real. Alma é consciência no mundo de pura consciência. O que quer que esteja conectado com a mente, no mundo mental do ego falso, é tudo falso. Uma parte do falso, também o é, extremamente falso, ainda que tenha sua utilidade, negativa.

Buscador: O senhor afirma que este mundo material é tão real como um reflexo, mas que não é real como a realidade absoluta do mundo espiritual. O senhor poderia explicar isso?

Srila Sridhar: A Realidade compõe-se de substância real e substância irreal. Podemos ver dessa maneira. Este é o mundo do equívoco. Equívoco significa que eu penso que algo é meu, mas, na realidade, não é assim. Tudo pertence ao Absoluto. Tudo Lhe pertence. Mas dizemos, "Isto é meu", e brigamos uns com os outros. De fato, tudo, dentro deste mundo, é propriedade de outrem. Mas, como resultado do equívoco, lutamos uns com os outros e tantas reações resultam dessa briga. O problema é que a alma está enredada nesta luta de faz de conta. Outrossim, este mundo de briga e equívoco não tem nenhum valor. Mas, o grãozinho de poeira de espírito, uma parte muito infinitesimal da realidade espiritual, está emaranhado neste mundo e preocupado com este mundo de brigas, de mentirinha. Sem a energia espiritual neste mundo, nada permaneceria. O truque da mão de um mágico baseia-se no equívoco. É falso. Mesmo assim ficamos perplexos diante de suas táticas. Isso também é verdade. Um mágico ou hipnotizador pode fazer-nos ver como real o que não é real e, ainda assim, enquanto estamos sob seu feitiço, não podemos negar que é real.

Buscador: Como podemos conhecer o que é de fato real?

Srila Sridhar: O nome dado pelas escrituras é sraddha, ou fé, que é o estado desenvolvido de sukrti, ou mérito espiritual. Quando nossa fé se desenvolve, leva-nos ao sãdhu-sanga, a associação de santos. Os agentes do mundo divino, que estão no plano da realidade - a onda nirguna além deste mundo de criação - vêm para estabelecer em nossa alma, alguma conexão com a realidade. Esse é o elemento mais profundo. A conexão com santos produz fé e fé pode ver a realidade.

Existe um mundo que pode ser vislumbrado somente por meio de fé, sraddhãmayo 'yam loka. Tal como a cor pode ser vista pelos olhos e o som percebido pelo ouvido, aquele mundo pode ser percebido, somente, pela fé. Somente a fé pode vê-lo e senti-lo - A Realidade Suprema não pode ser percebida com qualquer outro sentido. Fé é a verdadeira função da alma e pode ser desperta pelos agentes de Vaikuntha, os santos. Por causa da fé incrementamos nossa associação com os santos, e nesta transação, é que ocorre o cultivo da realidade. Gradualmente, este processo torna-nos plenamente conscientes. Nesse momento realizamos que este mundo em que vivemos é transitório e que nosso lar é em outro lugar. Nosso lar real localiza-se no mundo da consciência pura.

Buscador: Mas alguém poderá dizer "como provar isto? Estes são argumentos filosóficos. De que servem os argumentos filosóficos?"

Srila Sridhar: É a morte filosófica? A morte está aí para frustrar todas as outras coisas, caso você não busque o abrigo da filosofia. Somente a filosofia pode encarar o maior inimigo, a morte. E a morte não está limitada a uma coisa em particular; incluirá o mundo todo. O Sol, a Lua, as estrelas, este globo e tudo mais desaparecerá, no decorrer do tempo. Até mesmo os cientistas afirmam isso. Se queremos viver além do plano da morte, a filosofia nos auxiliará a ter uma vida eterna de paz eterna. Somente a filosofia pode dar-nos isso.

Todas estas ciências tecnológicas são simplesmente, uma tentativa de incrementar a sedução desta vida. São todas inimigas da alma, inimigas mortais. Todas elas nos guiam, apenas, até a sepultura. A sepultura é real e ficaremos aliviados, somente, se lidarmos com ela de forma filosófica. Caso contrário estamos todos acabados. Estes conceitos científicos, materialistas, são inimigos hábeis que nos cercam. Estão nos tentando, "Vive no mundo material, nós te ajudaremos.&q

uot; Isto é ilusão.

Buscador: Qual é então a diferença entre o mundo da realidade e o mundo material?

Srila Sridhar: Este mundo material é apenas um reflexo da realidade completa; é um conceito que achamos excitante. Nós abraçamos esta criação do Senhor, compelidos por um interesse peculiar de desfrutar. Com nossa visão coberta com as lentes do preconceito vemos as coisas de forma distorcida. Não devemos culpar o Senhor, mas sim, nossas lentes. Tudo destina-se a Ele. A diferença é que, em nossa visão da realidade ela está tingida das cores dos nossos diferentes tipos de interesses egoístas. E os diversos sistemas planetários no mundo material são sub planos no plano da exploração e do desfrute. Nossa consciência distorcida é a fonte das várias colorações nas coisas todas que nos rodeiam.

A única exigência é que temos que desenvolver nossa natureza profunda, nossa auto-identificação, através da autodeterminação. Na linguagem de Hegel a autodeterminação é o preenchimento de todos nós. No conceito Vaisnava a autodeterminação significa svarupa-síddhi, a identidade espiritual. Quem sou eu? O que é meu ser mais profundo, além da minha mente ou minha inteligência? Onde estou eu? Qual é meu auto-interesse interior? Tenho que entrar no plano da realidade. Tenho que conseguir de volta meu próprio ser. E, em conexão com Krsna, entrarei no meio-ambiente e verei o que o mundo realmente é.

Se me derem algum vinho ou veneno, então, ficarei fora de mim. Verei tudo de forma distorcida. Serei incapaz de reconhecer minha irmã ou mãe e agirei com a natureza animal. Verei tudo como um objeto para o meu desfrute. A tendência crua da luxúria cobrirá minha visão de tudo. Então, quando novamente ficar sóbrio, verei as mesmas coisas, mas a minha percepção de tudo estará mudada.

Desta maneira, temos que estar prontos a ir fundo, sob a superfície da realidade, e descobrir quem somos, qual é nosso auto-interesse. Deveríamos tentar ver a parafernália da realidade conforme nosso verdadeiro auto-interesse. Através da autodeterminação, deveríamos ver tudo de forma oposta à maneira que vemos no presente. Temos que procurar entender como descobrir a nós próprios. E, pela nossa rendição ao interesse de Krsna, tentaremos, então, ir de volta ao lar, de volta ao Supremo.