Voltando
ao tempo em que a missão vaisnava chegou ao ocidente e um devoto de nome
Brahmananda era o presidente do templo da 26 Second Avenue (na década de
60), Srila Prabhupada certa vez explicou este verso dizendo: "Mesmo
que vocês vissem Brahmananda caminhando pelas ruas fumando um cigarro,
ainda assim deveriam considera-lo santo".
Srila
Bhaktivinoda Thakura explica que, em geral, nossas atividades espirituais
e materiais devem andar lado a lado. Por exemplo, nós comemos (uma
atividade material) e, antes de começarmos, oferecemos todo o alimento a
Krishna (uma atividade espiritual), de forma que tudo o que fazemos tem a
mesma orientação.
Ou
trabalhamos, mas nosso trabalho é para Krishna. Tudo na mesma direção.
No entanto, às vezes nossa vida condicionada cruza nossa vida espiritual
e, em vez de andarem juntas, nossas atividades dirigem-se a objetivos
contrários. Então, neste caso, há uma discrepância material, ou queda.
Quando
isto acontece, um devoto viola princípios sociais ou éticos, ou até
mesmo princípios espirituais. De alguma forma, ele foi capturado pela
energia material. Assim, poderíamos dizer: "Muito bem, agora que ele
fez isto, deve ser considerado um hipócrita. Ele não presta para coisa
alguma". Contudo, Krishna assume uma posição revolucionária.
"Mesmo que alguém cometa ação das mais abomináveis", Krishna
diz, "se estiver sinceramente ocupado a Meu serviço, isto deve ter
precedência".
No
mundo material, qualquer um pode ser apanhado no redemoinho da energia
material. Contudo, se alguém estiver sinceramente ocupado em servir a
Krishna, ainda assim ele deverá ser considerado uma pessoa santa. Krishna
afirma isto de forma muito enfática.
Srila
Prabhupada explica: "Portanto, quem está em consciência de Krishna
e ocupa-se com determinação no processo de cantar Hare Krishna, Hare
Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare
Hare deve ser considerado como estando na posição transcendental, mesmo
que ele pareça ter caído por acaso ou acidentalmente.
As
palavras sadhur eva, "ele é santo", são muito
enfáticas. Aqui se adverte aos não-devotos, para que não zombem de um
devoto por ter tido uma queda acidental; ele ainda deve ser considerado
santo, mesmo que tenha caído acidentalmente. E a palavra mantavyah
dá ainda maior ênfase. Se a pessoa não seguir esta regra e zombar da
queda acidental do devoto, então estará desobedecendo à ordem do Senhor
Supremo. A única qualificação do devoto é estar firme e exclusivamente
ocupado em serviço devocional.
No
guia de estudo do Bhagavad-gita intitulado Renda-se a Mim,Srila
Visvanatha Cakravarti Thakura, diz que parafraseia as palavras de Krishna
e diz: -"Peguem seus címbalos e toquem suas mridangas e declarem
que, ainda que Meu devoto tivesse comportamento pecaminoso, jamais
pereceria". Alguém poderia argumentar: " Mas ele fez isto, ele
fez aquilo". Krishna diz não – ele ainda é uma pessoa santa. O
valor do serviço devocional é tão grande, que até mesmo uma grande
discrepância nas atividades materiais de alguém não o tira de cena. Ele
ainda é uma pessoa santa – talvez uma pessoa santa equivocada, mas
ainda assim santa, porque está cantando Hare Krishna e está devotado ao
serviço aos devotos e ao próprio Krishna.
Ainda
que um materialista fosse de primeira-classe em seus princípios éticos e
morais e estivesse fazendo tudo com perfeição, se não tivesse devoção
a Krishna, não seria uma pessoa santa. Um artigo publicado recentemente
em nossa revista Back to Godhead (De Volta ao Supremo) examinou as
quatro categorias de comportamento ético, de acordo com Srila
Bhaktivinoda Thakura.
...
Na categoria mais inferior está a pessoa que não é consciente de
Krishna ou Deus e também não tem princípios éticos. Esta pessoa não
segue princípios morais e, portanto, é um rato. Não serve para coisa
alguma. Acima desta categoria está a pessoa virtuosa, mas que não está
consciente de Deus. Ela tem a noção de que deve ser ética para
respeitar os princípios sociais, ou assegurar o bem-estar alheio, ou
ainda para conservar sua própria posição na sociedade. Esta pessoa é
mais ou menos egoísta, mas está numa categoria mais elevada – um
ateísta virtuoso.
Um
pouco mais acima está a pessoa que é virtuosa e consciente de Deus,
embora mais virtuosa do que consciente de Deus. E por fim, há aqueles que
se ocupam completamente no serviço a Krishna e, para estes, a
consciência de Deus é mais premente do que a moralidade. Estas pessoas
são virtuosas, mas seu padrão de moralidade é determinado por aquilo
que agrada e desagrada a Krishna. Estas pessoas estão numa plataforma
mais elevada, do que aqueles que simplesmente se perguntam: "Isto é
moral? Isto é ético?". Elas seguem um padrão ético absoluto:
Se
Krishna está satisfeito, isto é ético. Se Krishna está insatisfeito,
isto é imoral.
Evidentemente,
o próprio Krishna diz que geralmente devemos seguir os princípios
éticos e morais. Na verdade, estes princípios originam-se do próprio
Krishna. Eles são princípios védicos e aparecem de forma diluída nas
leis civis. Contudo, quando os princípios éticos e morais estão
apartados da consciência de Deus, eles descambam e começam a desmoronar
porque as pessoas não têm mais uma razão superior para segui-los, ou
uma base firme na qual possam basear estes princípios. Então, as leis
tornam-se arbitrárias. O que é moral? O que é imoral? As pessoas
desviam seus valores para se adaptarem à gratificação dos próprios
sentidos.
Os
políticos em especial apresentam todos os tipos de argumentos para
praticarem atos reprováveis, "porque isto é do interesse da
economia do país". Esta é a moralidade do mundo material, ou seja,
é maleável e flexível. Por isto, na verdade esta moralidade é
egoísta.
Entretanto,
isto não quer dizer que uma pessoa consciente de Krishna possa cometer
todo tipo de ação má e, em seguida, dizer: "Ó, fiz isto por
Krishna". Isto é uma ofensa. Ao cantarmos Hare Krishna, uma das
ofensas a serem evitadas é, namnad balad yasya hi papa-buddhih:
cometer atos pecaminosos apoiando-se no cantar de Hare Krishna. Cantar
Hare Krishna é um processo de purificação e, se alguém deseja ser
purificado, jamais deve pensar: "Tudo bem, estou prestes a cometer
uma ação pecaminosa, mas Krishna entende. Estou cantando Hare Krishna e
está tudo bem – Krishna irá perdoar-me". Isto é muito ruim e
não é o que Krishna está dizendo neste verso.
No
entanto, se alguém em consciência de Krishna fizer acidentalmente algo
que pareça pecaminoso ou, na verdade, fizer algo pecaminoso, porque está
abrigado firmemente aos pés de Krishna: "Tudo bem, isto não é
levado em consideração". Por que? Porque esta pessoa está
sinceramente ocupada a serviço de Krishna.
"No
Nrsimha Purana, há a seguinte afirmação":
bhagavati
ca harav ananya-ceta
bhrsa-malino
‘pi virajate manusyah
na
hi sasa-kalusa-cchabih kadacit
timira-parabhavatam
upaiti candrah
"O
significado é que, mesmo que alguém ocupado por completo no serviço
devocional ao Senhor às vezes cometa atos abomináveis, tal atitude deve
ser considerada como as manchas da lua, que se assemelham à forma de um
coelho. Estas manchas não impedem a difusão do luar. Da mesma forma, o
fato de um devoto acidentalmente sair do caminho do caráter santo não o
torna abominável".
Assim
como os americanos e europeus vêem um homem na lua, os hindus vêem um
coelho. Por esta razão, algumas vezes a lua é conhecida como sasi.
Esta palavra significa "lua" e também "aquilo que tem um
coelho". Portanto, existem algumas marcas na lua que se assemelham,
dependendo da cultura à qual você pertença, a um homem ou coelho.e
continua, "Estas manchas não impedem a difusão do luar. Da mesma
forma, o fato de um devoto acidentalmente sair do caminho do caráter
santo não o torna abominável".
Sempre
haverá alguém para criticar: "A lua tem manchas em sua
superfície". Contudo, alguém que sabe apreciar as coisas, verá que
a lua está irradiando tanta luz, que a lua é tão bela, gloriosa,
refrescante, suavizante. Assim, embora tenha algumas manchas, isto não a
desqualifica. Isto não quer dizer que a lua deveria ser retirada do céu,
porque tem manchas. Com manchas e tudo, ela deve ser aceita, da mesma
forma que o devoto.
Em
geral, um devoto deve ser imaculado. Em outro ponto do Bhagavad-gita,
afirma-se, nirdosam hi samam Brahma: Assim como a Personalidade de
Deus, ou a Verdade Absoluta, é impecável, também o devoto deve ser.
Contudo, algumas vezes ocorrem falhas. Isto é superficial.
"Por
outro lado", comenta- se que "não se deve interpretar que um
devoto no serviço devocional transcendental pode agir de todas as
maneiras abomináveis; este verso refere-se apenas a um acidente devido ao
forte poder das ligações materiais.
O
serviço devocional é mais ou menos uma declaração de guerra contra a
energia ilusória. Enquanto não se for bastante forte para combater a
energia ilusória, poderá haver quedas acidentais. Mas quando o devoto é
forte o suficiente, ele deixa de sujeitar-se a estas quedas, como já se
explicou. Ninguém deve se aproveitar deste verso para cometer tolices e
achar que continua sendo devoto. Se, com o serviço devocional, ele não
melhorar seu caráter, então se deve entender que ele não é um devoto
elevado".
Bem,
também existe o outro lado. Algumas vezes, vemos que uma pessoa
considerada religiosa faz qualquer tipo de coisas e seus seguidores dizem,
"Tudo bem, tudo isto é transcendental. Você precisa entender, tudo
isto é sua lila [passatempos], isto é tudo". Isto é
xaropada. Esta pessoa na verdade é um misantropo, um devasso, mas tudo é
visto como "transcendental". Não. Isto não quer dizer que se
pode ter uma vida pecaminosa e simplesmente dizer, "Tudo bem, tudo
bem, eu sou um devoto". Isto é indigno.
Existe
uma classe de homens conhecidos como sahajiyas, que agem como
libertinos e dizem que isto faz parte da sua prática devocional. Eles
têm algum sentimento por Krishna, mas não seguem as regras ou os
princípios do serviço devocional. Nós temos quatro regras: não se
intoxicar, não comer carne, não praticar sexo ilícito e não participar
de jogos de azar. Apesar disto, os sahajiyas denigrem todas estas
regras, porque "a questão fundamental é amar Krishna" – e
porque não são capazes mesmo de seguir estas regras. E também não
querem. Em vez disto, eles produzem uma misturada de "devoção
superior" e comportamento vil, uma mistura repugnante de devoção e
degradação. Isto não é o que Krishna diz neste verso, ou seja,
"que eles ainda devem ser considerados santos, não importa qual seja
seu estilo de vida".
Entretanto,
se um devoto conhece as regras e os princípios e está tentando
segui-los, mas por alguma razão tropeça e cai, isto não quer dizer que
este devoto está acabado, que está liquidado, ou que por um erro tudo se
pôs a perder. O serviço devocional não é isto. Krishna tem tanta
consideração pe
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lo serviço devocional, que Ele pensa, "Tudo bem,
ainda que algo tenha acontecido, o fato fundamental é que ele ainda é um
devoto". Portanto, Krishna ajuda esta pessoa. Desta forma, no verso
seguinte, Krishna diz, ksipram bhavati dharmatma: Ele rapidamente
volta ao padrão.
Algumas
vezes, o devoto comete um erro, mas em seguida se arrepende sinceramente:
"Ó, fiz algo errado". Nestes casos, as escrituras dizem que,
quaisquer que possam ter sido as impurezas, quaisquer que possam ter sido
as reações, elas são queimadas no fogo do arrependimento sincero. Desta
forma, o devoto se purifica e dentro de muito pouco tempo volta ao padrão
da devoção pura. Portanto, Krishna diz, kaunteya pratijanihi na me
bhakta pranasyati: "Ó filho de Kunti, declare ousadamente que
Meu devoto jamais perece". Um materialista poderia estar acabado, mas
um devoto tem tanto crédito transcendental, que ainda que haja uma queda
acidental, Krishna tende a ser generoso: "Tudo bem. Todos cometem
erros". E o devoto rapidamente volta a assumir um comportamento puro.
Por
tudo isto, um devoto jamais deve ser escarnecido. Em vez disto, os devotos
devem ser tidos em apreço. Krishna é conhecido como bhakta-batsala,
"aquele que é muito favorável aos Seus devotos". Desta forma,
uma pessoa inteligente que está tentando fazer progressos na vida
espiritual deve entender, "Ó, eis um devoto. Ele é muito querido
por Krishna".
No
entanto, isto não quer dizer que podemos manter uma rota desviada. Isto
não funciona. E também não quer dizer que podemos praticar qualquer ato
degradante e tudo bem. Contudo, se um devoto está ocupado sinceramente no
serviço a Krishna, mesmo que cometa algo abominável, devemos
considera-lo como a um santo. Certa vez, Srila Swami Prabhupada deu o
exemplo da precisão exigida nos lançamentos espaciais. Se a trajetória
estiver ligeiramente desviada, a nave espacial passará zumbindo longe do
seu destino. Devemos acertar o alvo da consciência de Krishna. Portanto,
se um devoto desviar-se, ele aciona seus retrofoguetes, coloca-se de novo
na rota e segue adiante. E o sucesso da missão está assegurado. Hare
Krsna!