:::Nectárea Terra do Servir:::

"Meu Devoto Sempre É Santo"
Sripad Padmanabha Maharaj

 

"....Pela potencia do efeito purificante da devoção por Krsna traços inauspiciosos gritantes poderão surgir no caráter de uma alma exclusivamente devotada ao serviço do Senhor, Embora tais defeitos pareçam abomináveis não são condenáveis como os oriundos de motivações malévolas ( como em um não devoto) Pelo contrário , devido á gloria natural, pura e maravilhosa de sua devoção exclusiva ( ananya bhajana) esse devoto deve ser visto como um verdadeiro santo. Se uma pessoa me servir com o coração exclusivamente devotado, mesmo se suas práticas forem abomináveis, ela deve ser reverenciada como um verdadeiro santo- sadhu, pois a resolução de sua vida é perfeita em todos respeitos". (Sri Gita- 9-30)

 

Voltando ao tempo em que a missão vaisnava chegou ao ocidente e um devoto de nome Brahmananda era o presidente do templo da 26 Second Avenue (na década de 60), Srila Prabhupada certa vez explicou este verso dizendo: "Mesmo que vocês vissem Brahmananda caminhando pelas ruas fumando um cigarro, ainda assim deveriam considera-lo santo".

Srila Bhaktivinoda Thakura explica que, em geral, nossas atividades espirituais e materiais devem andar lado a lado. Por exemplo, nós comemos (uma atividade material) e, antes de começarmos, oferecemos todo o alimento a Krishna (uma atividade espiritual), de forma que tudo o que fazemos tem a mesma orientação.

Ou trabalhamos, mas nosso trabalho é para Krishna. Tudo na mesma direção. No entanto, às vezes nossa vida condicionada cruza nossa vida espiritual e, em vez de andarem juntas, nossas atividades dirigem-se a objetivos contrários. Então, neste caso, há uma discrepância material, ou queda.

Quando isto acontece, um devoto viola princípios sociais ou éticos, ou até mesmo princípios espirituais. De alguma forma, ele foi capturado pela energia material. Assim, poderíamos dizer: "Muito bem, agora que ele fez isto, deve ser considerado um hipócrita. Ele não presta para coisa alguma". Contudo, Krishna assume uma posição revolucionária. "Mesmo que alguém cometa ação das mais abomináveis", Krishna diz, "se estiver sinceramente ocupado a Meu serviço, isto deve ter precedência".

No mundo material, qualquer um pode ser apanhado no redemoinho da energia material. Contudo, se alguém estiver sinceramente ocupado em servir a Krishna, ainda assim ele deverá ser considerado uma pessoa santa. Krishna afirma isto de forma muito enfática.

Srila Prabhupada explica: "Portanto, quem está em consciência de Krishna e ocupa-se com determinação no processo de cantar Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare deve ser considerado como estando na posição transcendental, mesmo que ele pareça ter caído por acaso ou acidentalmente.

As palavras sadhur eva, "ele é santo", são muito enfáticas. Aqui se adverte aos não-devotos, para que não zombem de um devoto por ter tido uma queda acidental; ele ainda deve ser considerado santo, mesmo que tenha caído acidentalmente. E a palavra mantavyah dá ainda maior ênfase. Se a pessoa não seguir esta regra e zombar da queda acidental do devoto, então estará desobedecendo à ordem do Senhor Supremo. A única qualificação do devoto é estar firme e exclusivamente ocupado em serviço devocional.

No guia de estudo do Bhagavad-gita intitulado Renda-se a Mim,Srila Visvanatha Cakravarti Thakura, diz que parafraseia as palavras de Krishna e diz: -"Peguem seus címbalos e toquem suas mridangas e declarem que, ainda que Meu devoto tivesse comportamento pecaminoso, jamais pereceria". Alguém poderia argumentar: " Mas ele fez isto, ele fez aquilo". Krishna diz não – ele ainda é uma pessoa santa. O valor do serviço devocional é tão grande, que até mesmo uma grande discrepância nas atividades materiais de alguém não o tira de cena. Ele ainda é uma pessoa santa – talvez uma pessoa santa equivocada, mas ainda assim santa, porque está cantando Hare Krishna e está devotado ao serviço aos devotos e ao próprio Krishna.

Ainda que um materialista fosse de primeira-classe em seus princípios éticos e morais e estivesse fazendo tudo com perfeição, se não tivesse devoção a Krishna, não seria uma pessoa santa. Um artigo publicado recentemente em nossa revista Back to Godhead (De Volta ao Supremo) examinou as quatro categorias de comportamento ético, de acordo com Srila Bhaktivinoda Thakura.

... Na categoria mais inferior está a pessoa que não é consciente de Krishna ou Deus e também não tem princípios éticos. Esta pessoa não segue princípios morais e, portanto, é um rato. Não serve para coisa alguma. Acima desta categoria está a pessoa virtuosa, mas que não está consciente de Deus. Ela tem a noção de que deve ser ética para respeitar os princípios sociais, ou assegurar o bem-estar alheio, ou ainda para conservar sua própria posição na sociedade. Esta pessoa é mais ou menos egoísta, mas está numa categoria mais elevada – um ateísta virtuoso.

Um pouco mais acima está a pessoa que é virtuosa e consciente de Deus, embora mais virtuosa do que consciente de Deus. E por fim, há aqueles que se ocupam completamente no serviço a Krishna e, para estes, a consciência de Deus é mais premente do que a moralidade. Estas pessoas são virtuosas, mas seu padrão de moralidade é determinado por aquilo que agrada e desagrada a Krishna. Estas pessoas estão numa plataforma mais elevada, do que aqueles que simplesmente se perguntam: "Isto é moral? Isto é ético?". Elas seguem um padrão ético absoluto:

Se Krishna está satisfeito, isto é ético. Se Krishna está insatisfeito, isto é imoral.

Evidentemente, o próprio Krishna diz que geralmente devemos seguir os princípios éticos e morais. Na verdade, estes princípios originam-se do próprio Krishna. Eles são princípios védicos e aparecem de forma diluída nas leis civis. Contudo, quando os princípios éticos e morais estão apartados da consciência de Deus, eles descambam e começam a desmoronar porque as pessoas não têm mais uma razão superior para segui-los, ou uma base firme na qual possam basear estes princípios. Então, as leis tornam-se arbitrárias. O que é moral? O que é imoral? As pessoas desviam seus valores para se adaptarem à gratificação dos próprios sentidos.

Os políticos em especial apresentam todos os tipos de argumentos para praticarem atos reprováveis, "porque isto é do interesse da economia do país". Esta é a moralidade do mundo material, ou seja, é maleável e flexível. Por isto, na verdade esta moralidade é egoísta.

Entretanto, isto não quer dizer que uma pessoa consciente de Krishna possa cometer todo tipo de ação má e, em seguida, dizer: "Ó, fiz isto por Krishna". Isto é uma ofensa. Ao cantarmos Hare Krishna, uma das ofensas a serem evitadas é, namnad balad yasya hi papa-buddhih: cometer atos pecaminosos apoiando-se no cantar de Hare Krishna. Cantar Hare Krishna é um processo de purificação e, se alguém deseja ser purificado, jamais deve pensar: "Tudo bem, estou prestes a cometer uma ação pecaminosa, mas Krishna entende. Estou cantando Hare Krishna e está tudo bem – Krishna irá perdoar-me". Isto é muito ruim e não é o que Krishna está dizendo neste verso.

No entanto, se alguém em consciência de Krishna fizer acidentalmente algo que pareça pecaminoso ou, na verdade, fizer algo pecaminoso, porque está abrigado firmemente aos pés de Krishna: "Tudo bem, isto não é levado em consideração". Por que? Porque esta pessoa está sinceramente ocupada a serviço de Krishna.

"No Nrsimha Purana, há a seguinte afirmação":

bhagavati ca harav ananya-ceta

bhrsa-malino ‘pi virajate manusyah

na hi sasa-kalusa-cchabih kadacit

timira-parabhavatam upaiti candrah

"O significado é que, mesmo que alguém ocupado por completo no serviço devocional ao Senhor às vezes cometa atos abomináveis, tal atitude deve ser considerada como as manchas da lua, que se assemelham à forma de um coelho. Estas manchas não impedem a difusão do luar. Da mesma forma, o fato de um devoto acidentalmente sair do caminho do caráter santo não o torna abominável".

Assim como os americanos e europeus vêem um homem na lua, os hindus vêem um coelho. Por esta razão, algumas vezes a lua é conhecida como sasi. Esta palavra significa "lua" e também "aquilo que tem um coelho". Portanto, existem algumas marcas na lua que se assemelham, dependendo da cultura à qual você pertença, a um homem ou coelho.e continua, "Estas manchas não impedem a difusão do luar. Da mesma forma, o fato de um devoto acidentalmente sair do caminho do caráter santo não o torna abominável".

Sempre haverá alguém para criticar: "A lua tem manchas em sua superfície". Contudo, alguém que sabe apreciar as coisas, verá que a lua está irradiando tanta luz, que a lua é tão bela, gloriosa, refrescante, suavizante. Assim, embora tenha algumas manchas, isto não a desqualifica. Isto não quer dizer que a lua deveria ser retirada do céu, porque tem manchas. Com manchas e tudo, ela deve ser aceita, da mesma forma que o devoto.

Em geral, um devoto deve ser imaculado. Em outro ponto do Bhagavad-gita, afirma-se, nirdosam hi samam Brahma: Assim como a Personalidade de Deus, ou a Verdade Absoluta, é impecável, também o devoto deve ser. Contudo, algumas vezes ocorrem falhas. Isto é superficial.

"Por outro lado", comenta- se que "não se deve interpretar que um devoto no serviço devocional transcendental pode agir de todas as maneiras abomináveis; este verso refere-se apenas a um acidente devido ao forte poder das ligações materiais.

O serviço devocional é mais ou menos uma declaração de guerra contra a energia ilusória. Enquanto não se for bastante forte para combater a energia ilusória, poderá haver quedas acidentais. Mas quando o devoto é forte o suficiente, ele deixa de sujeitar-se a estas quedas, como já se explicou. Ninguém deve se aproveitar deste verso para cometer tolices e achar que continua sendo devoto. Se, com o serviço devocional, ele não melhorar seu caráter, então se deve entender que ele não é um devoto elevado".

Bem, também existe o outro lado. Algumas vezes, vemos que uma pessoa considerada religiosa faz qualquer tipo de coisas e seus seguidores dizem, "Tudo bem, tudo isto é transcendental. Você precisa entender, tudo isto é sua lila [passatempos], isto é tudo". Isto é xaropada. Esta pessoa na verdade é um misantropo, um devasso, mas tudo é visto como "transcendental". Não. Isto não quer dizer que se pode ter uma vida pecaminosa e simplesmente dizer, "Tudo bem, tudo bem, eu sou um devoto". Isto é indigno.

Existe uma classe de homens conhecidos como sahajiyas, que agem como libertinos e dizem que isto faz parte da sua prática devocional. Eles têm algum sentimento por Krishna, mas não seguem as regras ou os princípios do serviço devocional. Nós temos quatro regras: não se intoxicar, não comer carne, não praticar sexo ilícito e não participar de jogos de azar. Apesar disto, os sahajiyas denigrem todas estas regras, porque "a questão fundamental é amar Krishna" – e porque não são capazes mesmo de seguir estas regras. E também não querem. Em vez disto, eles produzem uma misturada de "devoção superior" e comportamento vil, uma mistura repugnante de devoção e degradação. Isto não é o que Krishna diz neste verso, ou seja, "que eles ainda devem ser considerados santos, não importa qual seja seu estilo de vida".

Entretanto, se um devoto conhece as regras e os princípios e está tentando segui-los, mas por alguma razão tropeça e cai, isto não quer dizer que este devoto está acabado, que está liquidado, ou que por um erro tudo se pôs a perder. O serviço devocional não é isto. Krishna tem tanta consideração pe

lo serviço devocional, que Ele pensa, "Tudo bem, ainda que algo tenha acontecido, o fato fundamental é que ele ainda é um devoto". Portanto, Krishna ajuda esta pessoa. Desta forma, no verso seguinte, Krishna diz, ksipram bhavati dharmatma: Ele rapidamente volta ao padrão.

Algumas vezes, o devoto comete um erro, mas em seguida se arrepende sinceramente: "Ó, fiz algo errado". Nestes casos, as escrituras dizem que, quaisquer que possam ter sido as impurezas, quaisquer que possam ter sido as reações, elas são queimadas no fogo do arrependimento sincero. Desta forma, o devoto se purifica e dentro de muito pouco tempo volta ao padrão da devoção pura. Portanto, Krishna diz, kaunteya pratijanihi na me bhakta pranasyati: "Ó filho de Kunti, declare ousadamente que Meu devoto jamais perece". Um materialista poderia estar acabado, mas um devoto tem tanto crédito transcendental, que ainda que haja uma queda acidental, Krishna tende a ser generoso: "Tudo bem. Todos cometem erros". E o devoto rapidamente volta a assumir um comportamento puro.

Por tudo isto, um devoto jamais deve ser escarnecido. Em vez disto, os devotos devem ser tidos em apreço. Krishna é conhecido como bhakta-batsala, "aquele que é muito favorável aos Seus devotos". Desta forma, uma pessoa inteligente que está tentando fazer progressos na vida espiritual deve entender, "Ó, eis um devoto. Ele é muito querido por Krishna".

No entanto, isto não quer dizer que podemos manter uma rota desviada. Isto não funciona. E também não quer dizer que podemos praticar qualquer ato degradante e tudo bem. Contudo, se um devoto está ocupado sinceramente no serviço a Krishna, mesmo que cometa algo abominável, devemos considera-lo como a um santo. Certa vez, Srila Swami Prabhupada deu o exemplo da precisão exigida nos lançamentos espaciais. Se a trajetória estiver ligeiramente desviada, a nave espacial passará zumbindo longe do seu destino. Devemos acertar o alvo da consciência de Krishna. Portanto, se um devoto desviar-se, ele aciona seus retrofoguetes, coloca-se de novo na rota e segue adiante. E o sucesso da missão está assegurado. Hare Krsna!